Conceitos Hertzberger

  Herman Hertzberger inicia seu livro avaliando a controvérsia do individualismo e coletivismo modernos, associados às ideias do que é privado e público, os quais representam formas dos indivíduos justificarem o seu isolamento do mundo e de si mesmos. Logo após ele define o que seria o privado ou público como termos relativos, e não absolutos, às qualidades gradativas de um espaço. Ele coloca em xeque o relativismo dos termos público e privado, sendo que um pode se tornar o outro à medida que os usuários se apropriam do espaço, fazendo as suas próprias demarcações. Todas essas coisas devem ser levadas em conta pelo arquiteto na hora de projetar. A partir dessa diferenciação de acessos públicos, em planta ocorre a diferenciação dos espaços, sendo que a eles estará implícita informação sobre a quem ele é destinado e sob quem estarão os cuidados. 

Quanto aos usuários, tais espaços projetados podem vir a influenciar ou desestimular o envolvimento daqueles com esses de acordo com o planejamento do arquiteto, promovendo, além disso, o sentimento de pertencimento, de abrigo quando necessário.

O autor aponta o elemento de piso da soleira como sendo o ponto intermediário entre o espaço público da rua e o privado, sendo que a ele se relaciona o sentimento de hospitalidade de chegada e saída dia indivíduos, sendo nele o ponto de encontro e conexão entre áreas divergentes. Tais espaços intermediários são visto pelo autor como uma forma de amenizar a diferença rígida entre o domínio privado e público. E segundo ele, quando há tais espaços, os moradores se sentem mais inclinados a se apropriarem do que é público, criando espaços comunitários. 

Segundo Herman, uma obra pública deve combater a administração centralizada, a qual reprime os usuários que são também donos do espaço público, perdendo o sentimento de responsabilidade pessoal. Quanto a isso, o papel dos arquitetos deve ser o de criar um ambiente liberto das burocracias, incentivando os usuários terem esse senso de responsabilidade e cuidado com o espaço que também lhe pertence de direito, fazendo com que esses venham a deixar suas marcas. 

Herman analisa a condição da rua e a sua imagem. De acordo com ele, a rua, como efeito da gradativa prosperidade das pessoas, tem sido vista com um local perigoso, de vandalismo, mas de acordo com ele a interação entre as pessoas deve ser mantida e incentivada em contrapartida do crescente individualismo exacerbado. Para Herman, é importante que a rua seja planejada como uma “extensão comunitária das moradias”, sendo que essas são complementadas por aquela, devendo estar em equilíbrio entre si, garantindo que haja a possibilidade de interação entre vizinhos, até mesmo a criação de novos usos para a rua, promovendo o seu bom funcionamento. Quanto a isso, ao se pensar no planejamento de uma rua, é necessário analisar os seus objetivos e funcionalismos, voltando principalmente ao usuário que a utiliza. 

Ao passo que o autor conclui a primeira parte de seu livro, ele explicita que o domínio inteiramente público e o privado destinam-se meramente ao âmbito administrativo, mostrando, por exemplo, como um espaço privado pode ser visto como um espaço público interiorizado à medida que as qualidades arquitetônicas incentivam e promovem essa intermediação entre ambos, à exemplos das galerias com os seus tetos altos e envidraçados e seus caminhos feitos como uma extensão das calçadas de mesmo material.

No início da segunda parte do livro, Herman analisa como as regras da estrutura rígida não significam que haverá uma rigidez de criação na forma, ponderando também sobre a relação que há entre essa e o uso e a experiência. Para tanto, ele se utiliza das imagens figurativas da gramática e do xadrez, observando que ambas possuem suas regras base, mas mesmo assim existem modos diferentes de se comunicar e formas diferentes de jogar, garantindo o mesmo fim de uma forma mais livre, no entanto ainda sujeitas às regras base, de estrutura.


Dessa estrutura é capaz se criar formas que adquirem novos usos de acordo com a necessidade e a possibilidade, ajustando a objetivos e situações diferentes, moldando a sua aparência de maneiras distintas. E a partir dela, em tempo específico, surgem novas interpretações individuais através  da forma, como parte de um todo que é a estrutura coletiva, a qual pode ser vista como um contexto de criação e o meio pelo qual se ordena a construção dos espaço, evitando que haja apenas um caos instalado. Segundo ele, o arquiteto deve concentrar a sua atenção em como a estrutura pode se adequar às mudanças e não ao contrário.


Herman explicita também que, à exemplo da Villa Savoye de Le Corbusier, a estrutura é quem possibilita que os elementos se mantenham unidos e é a partir dela que se gera o preenchimento, e o inverso é igualmente verdadeiro, sendo que “quanto melhor for a qualidade de cada uma delas menos importante será a

distinção entre as duas categorias”. Para ele, compreensível à sua época, a grelha, como estrutura de cidade, é a aquela estrutura mínima de planejamento urbano, mas que segundo ele, contrariando aos que veem nela um espírito de monotonia, é a maneira mais capaz de promover o espírito imaginativo. Baseando-se em regras base, ela permitiria uma grande variedade de “detalhamento de cada sítio”.

 

Em questão de ordenamento construtivo, o autor aponta um método de pensamento mais estruturalista, ou seja, a partir das partes de um todo que é a construção, adquirisse um conjunto de partes recíprocas entre si, partindo da escolha da estrutura, a qual deve proporcionar as bases para “acomodar todas as inserções possíveis”. Escolhida a estrutura e com as escolha subsequentes de todas as outras partes que compõem uma construção, chegasse a uma unidade construtiva capaz de “acomodar um máximo de usos variados”. Tal ordenamento construtivo está intimamente ligado aos estilos arquitetônicos, sendo que ele permite ao arquiteto conhecer o desempenho possível da construção segundo o ordenamento escolhido, resultando em criações que não são rígidas por esse ordenamento, mas ao contrário, segundo ele, constrói-se um “paradoxo de um ordenamento que cria liberdade”.

 

Em linhas mais gerais, segundo Herman, os arquitetos devem projetar uma arquitetura que ao mesmo tempo em que mantém a sua identidade, ela possui a capacidade de se adequar às mudanças e a diversidade de usos.




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